Era um dos meus primeiros anos em Vitória, morando sozinho. Ainda ia quase todo fim de semana para Cachoeiro para visitar minha família. Naquele próximo seria diferente. Eu já havia avisado a todos que não poderia ir. Na verdade, meus planos eram outros. Eu iria sim pra Cachoeiro, porém havia decidido fazer uma visita surpresa pra minha família.
No sábado seguinte, acordei cedo, arrumei minha mala e fui pra rodoviária. Peguei um ônibus que me deixaria próximo de casa, tudo pra não correr o risco de ter minha surpresa revelada. Quase três horas de uma desagradável viagem, eu enfim estava em Cachoeiro. Subi o morro onde ficava minha casa com passos firmes e apressados. Não via a hora de ver minha família, me livrar de toda a poeira da viagem e comer novamente a comidinha de mamãe.
Cheguei a minha casa. Abri o portão com o máximo de cuidado. Fui entrando de maneira furtiva. Quando já me encontrava dentro de casa, gritei:
– Surpresa!!!
Minha família estava reunida a mesa. Estavam com cara de espanto. Minha surpresa havia funcionado. Cumprimentei-os calorosamente. Quando minha mãe pergunta:
– Mas você não ia ficar em Vitória esse fim de semana?
– Era mentira mãe, queria fazer uma surpresa pra vocês.
– Bem, você devia ter avisado...
– Por que, mãe? Não gostou da surpresa?
– Eu adorei, só que não te esperávamos pro almoço, então não fiz nada, apenas esquentei um pouco que já tinha e agora não tem nada pronto pra você almoçar...
E foi assim que eu aprendi a nunca mais fazer surpresas pra minha família.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Dilema
Ele havia recebido a notícia, como quem recebe um tijolo no peito. Ele sabia que tudo estava caminhando para isso, que no final era inevitável. Mesmo tendo isso em mente, ele acreditava ter mais tempo para evitar que isso acontecesse. Talvez, se tivesse agido antes poderia ter revertido a seu favor. Agora, porém, as peças estavam todas posicionadas e já se moviam. O tempo que antes fora seu aliado, agora joga contra ele.
Ele gostaria que tudo tivesse tomado outro rumo. Ele sabia que poderia ter tomado outro rumo, mas preferiu não intervir. Acreditava que as coisas deveriam mudar se assim fosse o certo. Sempre manteve a esperança de que isso seria o certo. Agora que percebeu seu engano, sentia o pânico enevoar seu julgamento. Não tinha muitas certezas mais.
Ele agora tinha certeza que precisava agir. Sabia que deveria bolar um plano e rápido. Precisava de algo que resolvesse a situação e colocasse as peças já em jogo a seu favor. A batalha ainda não estava perdida. Ele tinha algum tempo para usar. Não era muito, mas talvez fosse o suficiente, desde que tivesse o plano certo. Ele precisava de um plano. Independente de qual fosse e de seu sucesso, se fosse colocado em prática, nosso herói para sempre seria condenado a condição de vilão.
Ao receber a notícia, desligou seu computador e caminhou, com sua calma habitual, em direção ao seu barzinho. Encheu um copo com uma generosa dose do mais puro rum. Virou de um gole só. O amargo limpou seu peito e pesou em seus olhos. Enfim, pode dormir em paz.
Ele gostaria que tudo tivesse tomado outro rumo. Ele sabia que poderia ter tomado outro rumo, mas preferiu não intervir. Acreditava que as coisas deveriam mudar se assim fosse o certo. Sempre manteve a esperança de que isso seria o certo. Agora que percebeu seu engano, sentia o pânico enevoar seu julgamento. Não tinha muitas certezas mais.
Ele agora tinha certeza que precisava agir. Sabia que deveria bolar um plano e rápido. Precisava de algo que resolvesse a situação e colocasse as peças já em jogo a seu favor. A batalha ainda não estava perdida. Ele tinha algum tempo para usar. Não era muito, mas talvez fosse o suficiente, desde que tivesse o plano certo. Ele precisava de um plano. Independente de qual fosse e de seu sucesso, se fosse colocado em prática, nosso herói para sempre seria condenado a condição de vilão.
***
Ao receber a notícia, desligou seu computador e caminhou, com sua calma habitual, em direção ao seu barzinho. Encheu um copo com uma generosa dose do mais puro rum. Virou de um gole só. O amargo limpou seu peito e pesou em seus olhos. Enfim, pode dormir em paz.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Cotidianidades 010
Domingo, 8h da madruga. Sou despertado por um som alto e repentino. Um misto de sons angelicais e grunhidos demoníacos. Entro em desespero imaginando ser o Apocalipse. O pior, eu que sequer havia tido tempo de me arrepender de meus pecados cometidos na noite de sábado. Enquanto termino de despertar, pensava em motivos para ir para o céu. Logo percebo que não era o fim dos tempos.
Na verdade era minha vizinha que, como quase todo mundo, achava que seu gosto era o melhor e deveria impô-lo ao resto do mundo. Ela estava ouvindo música gospel no talo. Até aí tudo bem, eu já havia ouvido música alta em algum momento da minha vida. O fato de ser domingo de manhã, tranqüilo. Eu já havia chegado em casa de maneira pouco furtiva em horários mais inconvenientes. O problema todo estava em cantar junto, desafinado e mais alto que seu próprio aparelho de som.
Levantei de minha cama com uma ressaca que me fez repensar sobre se aquilo de fato não era o Apocalipse. Meu bom humor ainda estava dormindo e, pelo estrago causado pela minha vizinha sem noção, duvidava que ele acordasse naquele dia. Sem ter muito o que fazer, resolvi revidar na única língua que eles entendem. Declarei minha própria Jihad àquela situação.
Peguei meu aparelho de som. Coloquei-o próximo da janela e do apartamento da minha vizinha. Liguei o som no máximo com um dos meus CDs favoritos: o Black Album do Metallica. Deixei o repeat ligado. Tomei um comprimido de analgésico e fui tomar um banho pra tentar recuperar meu humor.
Cerca de meia hora depois, quando saí do chuveiro, imperava o silêncio no prédio. Algo que se manteve por um bom tempo, pelo menos nas manhãs de domingo nas quais eu acordava de ressaca.
Na verdade era minha vizinha que, como quase todo mundo, achava que seu gosto era o melhor e deveria impô-lo ao resto do mundo. Ela estava ouvindo música gospel no talo. Até aí tudo bem, eu já havia ouvido música alta em algum momento da minha vida. O fato de ser domingo de manhã, tranqüilo. Eu já havia chegado em casa de maneira pouco furtiva em horários mais inconvenientes. O problema todo estava em cantar junto, desafinado e mais alto que seu próprio aparelho de som.
Levantei de minha cama com uma ressaca que me fez repensar sobre se aquilo de fato não era o Apocalipse. Meu bom humor ainda estava dormindo e, pelo estrago causado pela minha vizinha sem noção, duvidava que ele acordasse naquele dia. Sem ter muito o que fazer, resolvi revidar na única língua que eles entendem. Declarei minha própria Jihad àquela situação.
Peguei meu aparelho de som. Coloquei-o próximo da janela e do apartamento da minha vizinha. Liguei o som no máximo com um dos meus CDs favoritos: o Black Album do Metallica. Deixei o repeat ligado. Tomei um comprimido de analgésico e fui tomar um banho pra tentar recuperar meu humor.
Cerca de meia hora depois, quando saí do chuveiro, imperava o silêncio no prédio. Algo que se manteve por um bom tempo, pelo menos nas manhãs de domingo nas quais eu acordava de ressaca.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Cotidianidades 009
Era verão, pelo menos me lembro como tal. Estava no começo da adolescência. Minha família foi passar o fim de semana na casa de praia de um tio em Jacaraípe. Em uma das noites saímos para jantar.
Enquanto os adultos e meu irmão mais novo ficaram no restaurante, acabei saindo com minha prima e sua amiga para dar uma volta pela orla. Elas eram alguns anos mais velhas que eu, em uma época da vida na qual isso faz alguma diferença. Logo que chegamos à rua, elas me deram os braços, uma de cada lado e disseram em meio a risos:
– Hoje a gente vai te atrapalhar, você não vai aprontar nada!
“Ótimo” – logo pensei.
Caminhamos rindo e falando amenidades por boa parte da orla. Lembro de ter ficado meio confuso em meio a tanta gente, principalmente pelo fato de ser uma das primeiras vezes que eu saia como adolescente.
Em um dado momento elas avistam alguns colegas de faculdade e me abandonam por um tempo para conversar com os sujeitos. Confesso que minha vontade imediata foi ir empatar a vida delas, assim como elas haviam prometido fazer comigo. Resisti. Aproveitei que estava “livre” e era um completo desconhecido para sair à caça.
Logo vi uma garota linda. Cabelos escuros e longos, pele clara, põem levemente queimada de sol e umas olheiras extremamente atraentes. Não sei o porquê, mas as olheiras dela me marcaram, acho que com um pouco de esforço até consigo revê-las em minhas memórias. Cheguei mais próximo a ela, pensando em como deveria abordá-la. Como eu disse era começo da minha adolescência e para um tímido convicto, aquilo era desafiador.
Um bom tempo se passou até que eu decidisse pelo simples e sempre confiável “oi”. Assim que me aproximava para puxar conversa, um cara chega até ela antes de mim. Comecei a praguejá-lo mentalmente. Todos os insultos que conhecia foram gastos contra ele e achei que eram insuficientes ainda. Então ele disse:
– E aí gata, quanto é o programa?
“Quebrou a cara! Vai levar um toco homérico!” – foi o que passou pela minha cabeça.
Quando, pra minha surpresa, ela respondeu:
– Cinqüenta reais e o táxi é por sua conta!
Enquanto o cara se afastava eu abria minha carteira desesperadamente e me perguntava o que ela estaria disposta a fazer por dez reais.
Enquanto os adultos e meu irmão mais novo ficaram no restaurante, acabei saindo com minha prima e sua amiga para dar uma volta pela orla. Elas eram alguns anos mais velhas que eu, em uma época da vida na qual isso faz alguma diferença. Logo que chegamos à rua, elas me deram os braços, uma de cada lado e disseram em meio a risos:
– Hoje a gente vai te atrapalhar, você não vai aprontar nada!
“Ótimo” – logo pensei.
Caminhamos rindo e falando amenidades por boa parte da orla. Lembro de ter ficado meio confuso em meio a tanta gente, principalmente pelo fato de ser uma das primeiras vezes que eu saia como adolescente.
Em um dado momento elas avistam alguns colegas de faculdade e me abandonam por um tempo para conversar com os sujeitos. Confesso que minha vontade imediata foi ir empatar a vida delas, assim como elas haviam prometido fazer comigo. Resisti. Aproveitei que estava “livre” e era um completo desconhecido para sair à caça.
Logo vi uma garota linda. Cabelos escuros e longos, pele clara, põem levemente queimada de sol e umas olheiras extremamente atraentes. Não sei o porquê, mas as olheiras dela me marcaram, acho que com um pouco de esforço até consigo revê-las em minhas memórias. Cheguei mais próximo a ela, pensando em como deveria abordá-la. Como eu disse era começo da minha adolescência e para um tímido convicto, aquilo era desafiador.
Um bom tempo se passou até que eu decidisse pelo simples e sempre confiável “oi”. Assim que me aproximava para puxar conversa, um cara chega até ela antes de mim. Comecei a praguejá-lo mentalmente. Todos os insultos que conhecia foram gastos contra ele e achei que eram insuficientes ainda. Então ele disse:
– E aí gata, quanto é o programa?
“Quebrou a cara! Vai levar um toco homérico!” – foi o que passou pela minha cabeça.
Quando, pra minha surpresa, ela respondeu:
– Cinqüenta reais e o táxi é por sua conta!
Enquanto o cara se afastava eu abria minha carteira desesperadamente e me perguntava o que ela estaria disposta a fazer por dez reais.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Edição...
Ando afastado. Tenho dedicado todo o meu tempo à minha monografia da pós. Entre os problemas está revisitar meu trabalho da graduação. Estou revendo e reescrevendo um capítulo e o adaptando para o assunto que estou abordando na pós. Falo basicamente sobre o mesmo tema: a questão da ideologia em história em quadrinhos.
A parte que eu estou tendo que revisitar é justamente o conceito de ideologia. Em meu trabalho graduação foi um dos pontos que mais me demandaram atenção. Algo que que se repete. Ao reler meu texto, passo por duas sensações: não acreditar como pude escrever aquilo e não conseguir cortar quase nada dos textos. As duras penas estou reescrevendo.
Com toda essa "luta" não pude deixar de fazer uma auto-crítica mais ampla. Como temos grandes dificuldades em reler o que fizemos e reescrever aquilo que não ficou do jeito que gostaríamos. Olhamos para nossos atos e nos achamos sempre certos e perfeitos. Não que devamos gastar todo nosso tempo apenas analisando o que fizemos, mas que devemos fazer esse exercício ocasionalmente.
Com um pouco de auto-crítica e com a edição correta, só podemos ter como produto final algo melhor...
A parte que eu estou tendo que revisitar é justamente o conceito de ideologia. Em meu trabalho graduação foi um dos pontos que mais me demandaram atenção. Algo que que se repete. Ao reler meu texto, passo por duas sensações: não acreditar como pude escrever aquilo e não conseguir cortar quase nada dos textos. As duras penas estou reescrevendo.
Com toda essa "luta" não pude deixar de fazer uma auto-crítica mais ampla. Como temos grandes dificuldades em reler o que fizemos e reescrever aquilo que não ficou do jeito que gostaríamos. Olhamos para nossos atos e nos achamos sempre certos e perfeitos. Não que devamos gastar todo nosso tempo apenas analisando o que fizemos, mas que devemos fazer esse exercício ocasionalmente.
Com um pouco de auto-crítica e com a edição correta, só podemos ter como produto final algo melhor...
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Tédio
Ando com o coração vazio e a cabeça cheia.
Acordo com a cabeça doendo,
sinais de ressaca em quem não bebeu.
Meu corpo já não reage do mesmo jeito aos meus excessos.
Tudo me cansa.
Tudo de entedia.
Tudo passa.
Tudo já foi passado.
De novo, só uma insistente dor no vazio,
que logo não terá novidade alguma...
Acordo com a cabeça doendo,
sinais de ressaca em quem não bebeu.
Meu corpo já não reage do mesmo jeito aos meus excessos.
Tudo me cansa.
Tudo de entedia.
Tudo passa.
Tudo já foi passado.
De novo, só uma insistente dor no vazio,
que logo não terá novidade alguma...
terça-feira, 26 de maio de 2009
Liberdade...
Já passava de três da madrugada de uma segunda-feira. Vinha caminhando sozinho pelas ruas de Jardim da Penha. Havia saído cerca de doze horas atrás para assistir a um jogo e tomar cerveja com os amigos. Agora andava acompanhado apenas pelos sons de seus passos.
As ruas estavam silenciosas. Era difícil acreditar que aquela calmaria, em poucas horas seria tomada por carros apressados e motoristas preocupados apenas em chegar.
Sabia que havia perigo. As ruas não eram mais tão seguras. Era inevitável não se lembrar das inúmeras vezes que havia feito essa caminhada no passado. Em seus primeiros anos de Vitória, era comum atravessar o bairro sozinho, de madrugada e bêbado.
Um sorriso surge em seu rosto. Ele caminha ignorando o perigo. Ele se sente livre, como a tempos a cidade não lhe permitia...
As ruas estavam silenciosas. Era difícil acreditar que aquela calmaria, em poucas horas seria tomada por carros apressados e motoristas preocupados apenas em chegar.
Sabia que havia perigo. As ruas não eram mais tão seguras. Era inevitável não se lembrar das inúmeras vezes que havia feito essa caminhada no passado. Em seus primeiros anos de Vitória, era comum atravessar o bairro sozinho, de madrugada e bêbado.
Um sorriso surge em seu rosto. Ele caminha ignorando o perigo. Ele se sente livre, como a tempos a cidade não lhe permitia...
Assinar:
Postagens (Atom)